A mais clara palavra lança a sua sombra sobre os muros caiados de fresco. O reflexo da cal incide em nossos olhos: o mesmo aceno da luz, o mesmo brilho, o mesmo pressentimento de júbilo. Sobre o peito fatigado da terra refazemos a casa. Dói-nos, no olhar, a intensa floração das árvores e podemos sentir, no clamor das antigas oliveiras, o vento que nos trouxe.
(De Graça Pires in Quando as estevas entraram no poema, 2005)
“Diz ele”, disse Austin, “que há um súbito cheiro a jasmim trazido por brisa inesperada, um súbito olhar límpido de mulher num súbito terraço, uma bola amarela de criança que vem devagar tocar-nos os pés, qualquer coisa de violino, ou qualquer coisa de harpa, que vem de qualquer coisa que é noite, ou apenas silêncio, uma luz filtrada de pausa em certo fim de tarde, o mar que chega à praia deste peito, a onda que se estende quando chega, um cisne sem lago subindo o colo daquela mulher, ou a sua nudez ansiada como espuma de carne num lençol, a curva a que a mão dá o contorno, o cansaço nos lábios mordendo o cigarro, a amplidão de repente feita olhar, um grilo vem dos nossos campos de outrora e canta na noite, o sabor do café na manhã, uma saia que roda e faz frufru, a luz que rompe, rindo, em face suje, alguém recupera música esquecida assobiando, a madeira velha larga um odor de tudo o que apetece voltar a ter, uma amigo chega, bate à porta e lembra-nos o que somos, uma frase atirada ao acaso dirige-se directamente ao coração de alguém, há uma gare que se percorre o tal abraço, um barco ao longo está parado e leva-nos, é de um verde tropical o cenário que te enfeita, faço áleas de repente por saber que vens aí, e é como passear galeras ou palmeiras, ou alegria, ou esta primavera alvoroçada, este encontro marcado fonte e folha, brotas da geometria de um canteiro, o espaço exacto, há uma gota de orvalho no teu ombro, a gota de orvalho que há no teu ombro reflecte tudo o que é puro, matinal, tudo o que puro e matinal em mim, embora eu já nem saiba como hei-de dizer tudo isto.” Houve outra pausa. “Diz Molero”, disse Austin, “que um homem ama e odeia, ou é simplesmente indiferente, mas que tudo recomeça em cada minuto que passa, disseram-lhe que nasceu uma criança, amanhã vai ao enterro de alguém, laços fazem-se e desfazem-se dentro dele, segue-se sonhando a luz de um pirilampo ou de um farol, fica uma noite acordado a olhar para trás, há um sótão mágico onde vasculhar memórias, embora ele não saiba onde fica o sótão, acontece que ele existe e sobe-se para ele não se sabe como.” Mister DeLuxe juntou as mãos em frente ao rosto. “O sótão da infância”, disse ele, “às vezes vou lá buscar o meu tambor dos cinco ano.” “É isso”, disse Austin, sorrindo, “e eu às vezes vou lá buscar a emoção de roubar ninhos ou então o cheiro da borracha das botas de pescar do meu avô”.