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"Por muito tempo achei que a ausencia era falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje nao a lastimo. Nao ha falta na ausencia. A ausencia e um estar em mim. E sinto-a, branca, tao pegada, aconchegada nos meus bracos, que rio e danco e invento exclamacoes alegres, porque a ausencia, essa ausencia assimilada, ninguem a rouba mais de mim."
" O Pássaro da Alma
No fundo, bem lá no fundo do corpo, mora a alma. Ainda não houve quem a visse, mas todos sabem que existe. E não só sabem que existe, como também sabem o que lá tem dentro. Dentro da alma, lá bem no centro, pousado numa pata, está um pássaro. E o nome desse pássaro é o Pássaro da Alma. E ele sente tudo o que nós sentimos :
Quando alguém nos magoa, o pássaro da alma agita-se para lá e para cá em todos os sentidos dentro do nosso corpo, sofre muito. Quando alguém nos ama, o pássaro da alma dá pulinhos de contente, para trás e para a frente, vai e vem. Quando alguém nos chama, o pássaro da alma põe-se logo à escuta da voz a fim de reconhecer que tipo de apelo é. Quando alguém se zanga connosco, o pássaro da alma recolhe-se
dentro de si ,tristonho e silencioso. E quando alguém nos abraça, o pássaro da alma que mora no fundo, bem lá no fundo do nosso corpo, começa a crescer, crescer, até encher quase todo o espaço dentro de nós, tão bom para ele é o abraço.
Dentro do corpo, no fundo, bem lá no fundo, mora a alma. Ainda não houve quem a visse, mas todos sabem que ela existe. E ainda nunca, nunca veio ao mundo alguém que não tivesse alma. Porque a alma entra dentro de nós no momento em que nascemos e não nos larga - Nem uma só vez – até ao fim da vida. Como o ar que o homem respira desde a hora em que nasce até à hora em que morre. Decerto querem também saber de que é feito o pássaro da alma. Ah, isso é mesmo muito fácil : É feito de gavetas e mais gavetas. Mas não podemos abrir as gavetas de qualquer maneira, pois cada uma delas tem uma chave para ela só! E o pássaro da alma é o único capaz de abrir as gavetas dele. Como ? Pois isso também é muito simples : Com a segunda pata.
O pássaro da alma está pousado numa pata, e com a outra – que em descanso está dobrada sob a barriga – roda a chave da gaveta que quer abrir, puxa pelo puxador, e tudo o que está dentro dela sai em liberdade para dentro do corpo.
E como tudo o que sentimos tem uma gaveta, o pássaro da alma tem imensas gavetas. A gaveta da alegria e a gaveta da tristeza. A gaveta da inveja e a gaveta da esperança. A gaveta da desilusão e a gaveta do desespero. A gaveta da paciência e a gaveta do desassossego. E mais a gaveta do ódio, a gaveta da cólera e a gaveta do mimo. A gaveta da preguiça e a gaveta do vazio. E a gaveta dos segredos mais escondidos, uma gaveta que quase nunca abrimos. E há mais gavetas. Vocês podem juntar todas as que quiserem.
Às vezes uma pessoa pode escolher e indicar ao pássaro as chaves a rodar e as gavetas a abrir. E outras vezes é o pássaro quem decide. Por exemplo: a pessoa quer estar calada e diz ao pássaro para abrir a gaveta do silêncio. Mas ele, por auto-recriação, Abre-lhe a gaveta da fala, E ela desata a falar, a falar sem querer. Outro exemplo: a pessoa quer escutar pacientemente - e em vez disso ele abre-lhe a gaveta do desassossego que faz com que ela se enerve. E acontece que a pessoa tenha ciúmes sem qualquer motivo. E que estrague justamente quando mais quer ajudar. Porque o pássaro da alma nem sempre é disciplinado e às vezes dá-lhe trabalhos...
Agora já compreendemos que cada homem é diferente do seu semelhante por causa do pássaro da alma que tem dentro de si. O pássaro que em certas manhãs abre a gaveta da alegria, e a alegria jorra para dentro do corpo e o dono dele fica feliz. E quando o pássaro lhe abre a gaveta da raiva, a raiva escorre de dentro dela e domina-o totalmente. Até que o pássaro volte a fechar a gaveta ele não pára de se zangar. E quando o pássaro está de mau humor abre gavetas que dão mal-estar. E quando o pássaro está de bom humor escolhe gavetas que fazem bem.
E o mais importante – é escutar logo o pássaro. Pois acontece o pássaro da alma chamar por nós, e nós não o ouvirmos. É pena. Ele quer falar-nos de nós próprios. Quer falar-nos dos sentimentos que estão encerrados nas gavetas dentro de nós.
Há quem o ouça muitas vezes. Há quem o ouça raras vezes, E há quem o ouça Uma única vez na vida.
Por isso vale a pena talvez tarde pela noite, quando o silêncio nos rodeia, escutar o pássaro da alma que mora dentro de nós, no fundo, lá bem no fundo do corpo. "
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