Perdoarão a arrogância, mas logo para início de conversa, a teoria: o Fado é a arte de bem dizer o silêncio. Na verdade, e se tempo houvesse, diria que toda a grande arte caminha para o que não se diz, simplesmente porque não existe maneira de o dizer. Uma pintura, um poema, uma voz – tudo isto, no seu melhor, diz o que não conseguimos dizer. E é isso que o Fado faz quando nos devolve sem defesas nem remédio o que se sente e que muitas vezes – sempre? – confundimos com esse mistério que resolvemos chamar de alma.
Essa magia é transmitida há muito tempo através de gerações dos seus praticantes: nas casas de Fado, nos retiros, nos bairros, homens e mulheres são iniciados nesta misteriosa disciplina de ir para além das palavras e cortar direito ao coração de quem ouve. Uma dessas eleitas é Filipa Cardoso.
Filipa cresceu no bairro do Alto do Pina, em Lisboa, entre amadores do Fado, no sentido mais nobre da palavra. As suas memórias de infância têm acordes de guitarra portuguesa e lembranças de vozes como a de Fernando Maurício. Aos 10 anos, num casamento de uma familiar, pedem-lhe para cantar um Fado; no final tinha uma oferta de emprego e correspondente cachet. Cinco anos depois volta a encantar por acaso, num aniversário, o que lhe valeu a contratação para actuar em duas casas de Fado.
Só que havia um problema: a adolescente feliz não conseguia sentir o repertório triste que a faziam cantar – o que no Fado é pecado maior e infelizmente comum. Nessa altura tomou uma decisão corajosa e sensata: parou. Voltaria nove anos mais tarde, depois de um período intenso em que ganhou vida e encheu a alma das emoções boas e más de que a vida é feita. Não é de estranhar que quando o Fado voltou, já chegou cheio de verdade. Resultado mais visível: a sua vitória na Grande Noite do Fado de 2004.
É convidada a integrar o elenco da casa de Fados Sr.Vinho, onde continua a sua aprendizagem. Até que um dia o destino – personagem inevitável nesta história – lhe dá a conhecer Jorge Fernando, que além de ser um brilhante músico, autor, compositor e cantor é também alguém com um raro dom para perceber as almas de diamante em bruto: foi assim com Mariza, foi assim com Ana Moura, é assim com Filipa Cardoso. A todas Jorge Fernando produziu o primeiro disco. No caso de Filipa, assina também a maior parte dos poemas e alguns Fados originais.
Quem ouvir com atenção Cumprir Seu Fado compreende que, mais do que um disco de Fado, é uma inevitabilidade para Filipa Cardoso. A voz e a alma estavam há algum tempo prontas a ser partilhadas. E são-no da maneira mais bonita: quer cante o ciúme, o desengano, o amor impossível e o amor maternal, o desejo cru e poético e claro, a saudade, Filipa Cardoso diz a verdade. Percebeu-o Argentina Santos, que com ela colabora no “Fado da Herança”. Porque o que Filipa traz é a herança da mudança, uma voz que carrega todos os fadistas e poetas do passado para desaguar numa alma só dela. E que ao escutar-se o primeiro Fado, garanto: é também a nossa alma.
(Nuno Miguel Guedes, Fevereiro de 2009)
You will forgive my presumption, but to kick off the discussion, here’s the theory: Fado is the art of expressing silence well. Actually, if I had the space, I would argue that all great art tends to be about what is unsaid, simply because there is no way to say it. A painting, a poem, a voice – all these, at their best, express what we are not able to say. And that is what Fado does when, powerfully and inescapably, it transmits to us the feeling that we frequently – invariably? – mistake for that mysterious thing we call soul.
That magic has been conveyed since time out of mind by generations of its practitioners: in Fado houses, in back rooms, in neighbourhoods, men and women are initiated into this mysterious art of transcending the words and going straight to the heart of those listening. Filipa Cardoso is one of those chosen initiates.
She grew up in the neighbourhood of Alto do Pina in Lisbon, among devotees of Fado. Her childhood memories are of the chords of the Portuguese guitar and of voices like that of Fernando Maurício. Aged 10 at a family wedding, she was asked to sing a Fado. When she finished, she had the offer of a job and the salary to go with it. Five years later, she captivated her listeners again by chance at a birthday party, which earned her a contract to perform in two Fado houses.
There was just one problem – the cheerful adolescent was unable to empathise with the repertoire that they wanted her to sing – which is the biggest, and regrettably all too common a sin in Fado.
She then took a courageous and sensible decision: she stopped. She returned nine years later, after an intense period in which she grew up and filled her soul with the good and bad emotions which life is made of. It is not surprising that when the Fado returned, it rang true. The most visible result was her victory at the 2004 “Grande Noite do Fado” (Fado Gala).
She joined the bill at “Sr. Vinho”, famous Fado House in Lisbon where she continued her apprenticeship. Until one day fate – an unavoidable character in this story – led her to meet Jorge Fernando who, in addition to being a brilliant musician, author, composer and singer, is one of those people with the rare gift of recognising unpolished diamonds: that was how it was with Mariza, how it was with Ana Moura, and how it is with Filipa Cardoso. For all of them, Jorge Fernando produced their first record. In Filipa’s case, he also wrote most of the poems and some original Fados.
Those who listen closely to ‘Cumprir Seu Fado’ will understand that, more than just a Fado disc, it is Filipa Cardoso’s inevitable destiny. The voice and the soul were ready to be shared some time ago. And they are, in the most appealing way: whether she is singing about jealousy, disillusion, impossible love and maternal love, raw, poetic and obvious desire, or longing, Filipa Cardoso’s voice has the authentic ring. Argentina Santos, with whom she collaborates on “Fado da Herança”, has recognised that. What Filipa brings is not new, because that is not what is needed. It is the inheritance of change, a voice that harks back to all the fadistas and poets of the past to flow out in a soul that is uniquely hers. And listening to the first Fado, I assure you: it is also our soul.
(Nuno Miguel Guedes, February 2009)
Interests
"CUMPRIR SEU FADO" - CD nas lojas a 23-02-09
Alinhamento | Line Up:
1 - Maria triste (Jorge Fernando) 2 - Cai a noite (Jorge Fernando) 3 - Dia estranho (Jorge Fernando) 4 - Fado da herança (L: Jorge Fernando; M: Alfredo Marceneiro (Fado Pierrot)) 5 - Meu amor (L: José Luís Gordo; M: Fado Corrido) 6 - Beatriz (L: Jorge Fernando; M: Miguel Ramos (Fado Margaridas)) 7 - Meus lábios beijam o fado (L: Mário Rainho; M: José Fontes Rocha (Fado Isabel)) 8 - Há um silêncio entre nós (L: Filipa Cardoso; M: Joaquim Campos (Fado Tango)) 9 - Tudo o que não disse (Jorge Fernando (Fado Filipa)) 10 - Por onde andas tu a esta hora (L: Jorge Fernando; M: Raúl Ferrão) 11- Súplica perdida (L: Jorge Fernando; M: Raúl Portela (Fado Magala)) 12- Amor por nós dois (L: Mário Rainho; M: Amadeu Rami (Fado Zeca))
Produção | Production: Jorge Fernando Co-produção | Co-Production: Fernando Nunes Arranjos | Arrangements: Jorge Fernando e José Manuel Neto Guitarra Portuguesa | Portuguese Guitar: José Manuel Neto Viola | Accoustic Guitar: Jorge Fernando Baixo | Bass Guitar: Daniel Pinto
Gravado, misturado e masterizado | Recorded, mixed and mastered at: Estúdio Pé de Vento
Participação especial no tema "Fado da Herança" | Special guest in "Fado da Herança": Argentina Santos
Fotografia | Photos: José Chan; Cabelos | Hairdresser: Eduarto Beauté; Makeup: Ligea; Grafismo e obras plásticas | Design and paintings: Eduardo Bragança Joalharia | Jewelry: Dom Pedro V Jóias
O novo e itinerante programa das tardes da RTP1 estará nesta próxima sexta-feira, dia 10-07-08, em Lisboa e irá receber Filipa Cardoso como artista convidada. Pelas 15h00, a não perder! RTP - Verão Total
[:)][blue]Òla é um praser te conhecer,Filipa.E aclei lindo o seu perfil com foto.Se não fosse abuzo da minha parte você me ensina como colocar foto no fundo do e-mail.Eu agradeço.Um beijo e que Deus te abençoe.[:)]
Linda, sabes o qt te respeito, admiro, o qt gosto de te ouvir e o qt gosto de ti. Tens tudo para seres feliz. Quero mt que assim seja. Parabéns plo cd e "Aquele Dia Estranho" é mt meu... desculpa, mas é mesmo. Um beijo de muita amizade e obrigada pla cumplicidade em noites tão bonitas como aquelas em que tive o privilégio de ter tido a tua presença. O publico adora-te. Voa! Tens asas! E eu fico aqui em baixo a assistir a esse voo de sucesso, vitórias e triunfos. Adoro-te. Bjinhos grandes. Graça Silva - Alenquer