Ai vida que dura Vivendo sem mim Deixai-me que cante Vou chorando assim Vou entre sargaços Estendo os meus braços Pelos areais, ficaram meus passos E dos meus cabelos Caíram os laços No meu coração, ficaram cansaços Perdi meus abraços Entre a solidão
Disseram-me estrelas E desejei tê-las Disseram-me céu E o céu era meu Disseram-me amor Conheci a dor Disseram-me irmão E era traição Disseram-me lua E dormi na rua Disseram-me Deus Ai pecados meus
Menina, Menina Flor de Primavera Quem te deu a sina Que tua já era O meu coração Na palma da mão Deixei-o ficar Caiu-me no chão Caiu-me no chão Deixei-o ficar E sem coração Não se pode amar
Sinto que hoje novamente embarco Para as grandes aventuras, Passam no ar palavras obscuras E o meu desejo canta --- por isso marco Nos meus sentidos a imagem desta hora.
Sonoro e profundo Aquele mundo Que eu sonhara e perdera Espera O peso dos meus gestos.
E dormem mil gestos nos meus dedos.
Desligadas dos círculos funestos Das mentiras alheias, Finalmente solitárias, As minhas mãos estão cheias De expectativa e de segredos Como os negros arvoredos Que baloiçam na noite murmurando.
Ao longe por mim oiço chamando A voz das coisas que eu sei amar.
E de novo caminho para o mar.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Interests
"Gosto de fazer desenhos, de rabiscar, de pintar, de brincar com os tamanhos, de trocar as cores as coisas, pelo prazer de as mudar.
Gosto de inventar pessoas, numa folha de papel, que e onde sao sempre boas.
Gosto de desenhar sitios, que so eu sei onde sao. Acho que sao mais bonitos, esses sitios onde poisa a minha imaginacao!"